Correspondências quase diárias (Sensações atemporais...) (2)




Em algum lugar de mim, 22 de setembro de 1943.



Mais um dia e eu aqui, lhe dizendo coisas.
Hoje quero lhe falar da poesia dos dias.
Como o pão e o café que me alimenta a boca pela manhã, paira uma poesia,
a alimentar-me a alma.
Entra, bela, faceira, formosa, pelos meus olhos...
Desce-me às narinas, enrola-me como segunda pele, todo o corpo.
Arranha-me o dorso.
Tem mais fome, que a minha própria fome.
Todo dia um Poema me possui.
Dilui-me nas veias. Navega, vísceras,
ossos, quaisquer vestígios de poros.
Lança-se em mim, por mim, através de mim, azul e rosa, como as fases dos pincéis...
Deixa-me a tez em tons pastéis.
Rabisca-me flores, odores, sabores,
luas, estrelas vias láteas inteiras...
Cobre-me em manto.
Cintila!
Às vezes, opaca, brilha.
É gérmen de trigo, punhados de centeio,
a pura semolina, a fatia da letra que me sustenta a existência,por ser uma poesia,
que nasce em mim,
todos os dias.
Todo dia uma poesia, ainda que em única e sucinta palavra para ser soprada como uma lufada de brisa, quase imperceptível que chegará até você.
Nota - Escrevo-te essa missiva em forma de poema...

Um leve beijo e um breve abraço

Penélope


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Eu, nas entrelinhas - À FLOR DA PELE...

Eu, nas entrelinhas - O MELHOR DE MIM...

Eu, nas entrelinhas - ANÁLISE ÍNTIMA...