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Correspondências quase diárias (Sensações atemporais...) (11)

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Em algum lugar de mim, 28 de março de 1934.
Eu ouço Chiquinha Gonzaga. Lá fora, é prenúncio de outono. As árvores começam a desnudarem-se e deixarem fatias de suas vestes pelas estradas. O vento sereno balança, imperceptivelmente, as cortinas de organdi. A sala está deserta. A mesa do café ainda posta e as porcelanas impecavelmente arranjadas em seus lugares. Custa-me abrir os olhos, assim, pela manhã. Ainda estou em estado de imagens tão leves e azuis que não quero desandar pelos corredores da realidade. Sorvo o café que passeia pela casa em seu aroma, junto com a sensação que trago ainda, dos seus olhos, à beira d'um mar que desconheço. Sonhei contigo! Busquei ternura nos cenários dos sonhos. E foi leve caminharmos juntos, conversando coisas inaudíveis, que pertencem somente a um mundo infinito e particular. Também éramos um pouco de azuis, tão azuis quanto as imagens que me acompanham nesse instante. A solidão da casa me faz dançar. Estou sozinha! Mas porque afirmar ausências se sempre f…

Entre as paredes do teu mundo...

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Não sabia o que iria encontrar, mas mesmo assim fui adentrando pelo espaço desconhecido que me seduzia. Passos indecisos... imprecisos... coração passeando pela boca e os pés flutuando em espumas ardentes. A cabeça rodava, como um carrossel, fora de controle a cada milímetro conquistado. Medo e desejo, lado a lado em audaciosa descoberta. Sem querer transpus-me aos cenários dos teus sentimentos, tão reais e, ao mesmo tempo, profundamente fictícios que pude sentir os aromas, ouvir a música e, por fim, encantar-me com teus jardins, suspensos entre as Babilônias que se construiram em mim. Transcendi o universo material... ultrapassei a barreira do som. Voltar já é impossível, pois entre as paredes do teu mundo fiquei perdida e, todos os dias, tateio com mãos plasmáticas a porta de saída que não mais existe.
Malu Silva



Pacto e lascívia...

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Amarei-te a noite inteira, De todas as formas, de qualquer maneira. Beijarei teu rosto, sentirei teu gosto E, sob lençóis brancos, adormeceremos depois do amor. Em nosso quarto, sob a luz do abajur e ao som de Blue Gardênia Sonharemos tudo aquilo que se pode sonhar Até fundirmos nossas digitais. Na manhã seguinte, prometo: Darei meu corpo, novamente, a ti... Desde que devolva minha alma.
Malu Silva

Fênix...

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O que ganhei da vida? Uma ferida, Uma cicatriz, A liberdade... Um campo de solidão. O conflito diário. A casa fria, durante a noite.
O que restou dos meus sonhos? Espaços vazios, Um autorretrato pintado à mão, O desejo louco de gritar Ou talvez estrangular a voz.
O que sou hoje, como ser? Folhagem solta, pelo jardim... Feliz! Nasci... Cresci... Vivo cada instante, Cada momento que passa... Assim, refaço-me! Renasço das cinzas, Das minhas crises existenciais.
Malu Silva

Correspondências quase diárias (Sensações Atemporais...) (9)

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Em algum lugar de mim, 16 de maio de 1944.
Tenho procurado leituras amenas, filmes leves, conversas supérfluas. Na verdade, tenho me desviado das seriedades da VIDA a cada dia que passa. Não que eu tenha deixado de ser compromissada com o VIVER, mas tenho me absorvido mais com as coisas mais ocas e coloridas do que com o fardo pesado que me é deixado à porta a cada amanhecer. Os meus ombros sabem o quanto tenho que carregar, portanto entre uma paragem e outra nada melhor do que as paisagens vazias para arrefecer a jornada escura...
O que posso fazer se sou esta constante de alegria e tristeza... talvez nem pudesse chamar de tristeza essa fluência doce e cheia de lágrimas que me é tão própria.
Tudo isso talvez seja saudades de ti. Essa intensa vontade de ter-te por perto a fazer companhia aos meus dias.
Um dia há de vir fazer parte destas paisagens vazias e haveremos de sorver momentos de felicidades só nossas.
Ando às pressas e sem grandes inspirações por hora.
Um leve beijo e um breve abraç…

Nas cores do aquário...

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Em águas transparentes nadam ágeis e inocentes meus pensamentos em frações de segundos, em átomos momentos percorrendo entre os peixes mansos e coloridos. Neste pensar os reflexos incidem o sol,.. forma arco-íris em anzol. Fisga as cores refletidas no mover da água furta-cor, perdida, que somente meus olhos podem delinear.
Malu Silva

És tu - música e poesia...

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Quanto estou contigo uma poesia inquietante e avassaladora invade-me e vai deslizando pelas minhas veias... transportando-se por todo ar.
São tuas mãos que num entalhe preciso escrevem pelo meu corpo, através das palavras esquecidas em um mantra de amor no poente.
Quando estou contigo corre-me uma música doce a evidenciar ao mundo nosso encontro que materializa-se entre celos e harpas.
E, assim, invadimos e preenchemos todos os espaços vazios e nos pintamos, corpo e alma, com as cores particulares de nós dois.
As letras - um poema indefinido - são os movimentos dos nossos passos sem nos preocuparmos com qualquer direção...
A melodia - nossos sorrisos - voando absorta e leve, pelas amplidões de um universo indefinido, sem arco-iris ou horizontes, mas tão perfeito quanto o próprio paraíso.
Dentro de ti tons a construírem sinfonias inteiras... árias de amor... versos a espalharem ventanias de fogo.
Porque quando estou contigo, uma orquestra propaga mágicas notas e o poeta de ti sublinha as mais…

Correspondências quase diárias (Sensações atemporais...) (8)

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Em algum lugar de mim, 12 de janeiro de 1954
Já se foram os dias de festa, mas as pessoas continuam num transe frenético e seus movimentos são tão bruscos e grosseiros que me sinto machucada. Não! Não é a felicidade que me incomoda! O que me atormenta é o esboço dela, a sua caricatura, estampada nos rostos vazios que tenho encontrado. E fala-se alto e, ainda erguem brindes ao tudo e ao nada. Preciso arrumar meus pensamentos, meu querido. Silenciar de ponta a ponta as margens deste mar que percorro todos os dias, esvaziando cada gaveta que está em desalinho. Limpar os cantos mais omissos. Criar coragem e sacudir a alma de tantas coisas inúteis que tenho carregado. Praticar o desapego, pois tenho vínculos fortes com certas pessoas, lugares e objetos, que não me fazem bem. Necessito fechar portas e ficar no escuro, onde nada venha a se propagar. Quero tanto deixar minhas amplitudes zeradas, puras...  Procurar minha calma e dentro dela poder encontrar digitais e particularidades tuas que só esse…

Desopilando o fígado...

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A gente faz planos, mas não pode deixar tudo muito amarrado senão não flui, não viceja. Eu quero uma vida viçosa, abundante, pois passo horas na semeadura. Fiquei mais de uma semana sem passar por aqui, mas, agora que consegui chegar vou fazer uma limpeza na alma, uma varredura no coração... vou mesmo é desopilar o fígado, para não ficar amarga! O bom é ser doce, de abacaxi e laranja que tanto gosto. Nada de fel! Esbanjemos dos açúcares e, para os diabéticos, caprichemos na sucralose.
Em breve terei novidades! Tudo fervilhando por aqui!
Mesmo com a doença do meu pai, ou melhor, mesmo com a doença dos meus pais, pois minha mãe passou por uma depressão muito grande - essa tal de crise do pânico - o que na verdade nada mais é do que a alma triste que faz com que o cérebro para de produzir serotonina (ALEGRIA), eu descobri que tenho que caminhar.
Tenho que cuidar deles, isso é fato, mas a minha VIDA continua! Trabalho não falta! Tempo a gente arranja, porque sou do tipo que, quanto mais faço, mais a…

Leitura noturna...

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Leia meus versos no silêncio da noite.  Eles trazem minh'alma e, nela, os poemas da minha vida inteira.  Desvelam o que em mim ainda não compreende - linguagem de loucuras; meu simples estremecer, diante da brisa; partes escuras e ofendidas... aquelas, que a brisa não acaricia.  Perceba, nas entrelinhas, verdades e mentiras, e tudo o que mais queira perceber nestas minhas linhas inconstantes...  E assim, conforme a noite te passa, na fosca luz da madrugada, pense-me, uma vez ou outra... sonhe com os beijos das nossas bocas e, dentro deste presente/pretérito, mais que perfeita conjugação, deixa-me, no infinitivo, neste amar-te, perdidamente, aqui, distante, enquanto me lê.
Malu Silva